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Glossário _ Carlos Mourão Pereira, Catarina Grave, Daniela Arnaut, Francisco Teixeira Bastos, Teresa V. Heitor, Mina Djukanovic
I. Conceitos gerais de perceção sensorial
perceção multissensorial
n 1. processo ativo de interpretação do ambiente construído, através do qual estímulos sensoriais, referências espaciais e contexto se articulam para a compreensão do espaço (Gibson, 1966; Lynch, 1960; Spence, 2020). 2. interação e influência simultânea entre os diferentes sentidos (Spence, 2020). 3. interpretação de estímulos sensoriais, frequentemente automática e nem sempre consciente (Hatfield, 2018). 4. contribui para a compreensão, a orientação e a atribuição de significado ao espaço (Lynch, 1960; Spence, 2020).
No projeto Shade, a perceção do ambiente deve resultar do conjunto de diferentes estímulos sensoriais, com especial atenção aos que remetem para o tato, a audição e o olfato. Quando articulados, estes estímulos contribuem para uma experiência multissensorial mais completa, principalmente para os utilizadores não visuais.
experiência espacial
n 1. experiência que emerge da interação dinâmica entre o corpo, o conjunto de estímulos sensoriais e os elementos do ambiente construído (Bloomer & Moore, 1977; Pallasmaa, 2011). 2. condicionada pelas características físicas e sensoriais do ambiente, memória, experiências anteriores e contexto em que o utilizador se insere (Pallasmaa, 2011; Spence, 2020). 3. influencia sensações, emoções e respostas comportamentais, com impacto no bem-estar e na saúde (Grimaldi et al., 2024; Spence, 2020). 4. adquire um carácter mais imersivo, envolvente e memorável quando articula diferentes sentidos de forma congruente (Bloomer & Moore, 1977; Spence, 2020).
No projeto Shade, os estímulos sensoriais devem ser pensados para influenciar positivamente as sensações, o bem-estar e o comportamento dos utilizadores. Estes estímulos, além de contribuírem para o conforto e reconhecimento do espaço, contribuem para estabelecer uma ligação emocional.
orientação espacial
n 1. capacidade cognitiva de extrair informações do ambiente para compreender e situar-se no espaço envolvente (Passini, 1984). 2. processo dinâmico de movimentação pelo espaço que envolve a definição de percursos. 3. apoiada pela leitura de referências espaciais e pela informação sensorial disponível. 4. contribui para o reconhecimento do ambiente construído, a compreensão do espaço e a relação que o utilizador estabelece com o lugar (Lynch, 1960; Passini, 1984; Vasilikou, 2016). 5. para utilizadores não visuais, a orientação apoia-se sobretudo em estímulos auditivos, táteis e olfativos (Koutsoklenis & Papadopoulos, 2011; Robertson & Dunne, 1998).
Nos abrigos solares, devem ser incluídas referências sensoriais, como diferentes texturas, sons intencionais e odores distintos, para ajudar os utilizadores cegos a identificar os percursos, limites do espaço e áreas de permanência.
II. Conceitos Relacionados com desenho multissensorial
arquitetura multissensorial
n 1. abordagem arquitetónica que valoriza experiências que envolvem e estimulam positivamente os múltiplos sentidos (Pallasmaa, 2011). 2. contribui para a experiência espacial e para a relação que o utilizador estabelece com o espaço (Pallasmaa, 2011). 3. afasta-se da ideia de que a arquitetura é meramente visual (Pallasmaa, 2011). 4. considera o impacto dos múltiplos estímulos sensoriais nos utilizadores e como interagem entre si. 5. apoia o desenvolvimento de espaços mais inclusivos e promotores de saúde e bem-estar (Spence, 2020).
O projeto Shade deve desenvolver abrigos solares que integrem estímulos sensoriais de forma articulada, com o objetivo de transformar a experiência do utilizador e promover uma relação mais significativa entre os indivíduos e o ambiente.
III. Conceitos relacionados com Soundscape
soundscape [paisagem sonora]
n 1. ambiente acústico tal como é percecionado, experienciado e/ou compreendido pelos utilizadores, num determinado contexto (ISO, 2014). 2. conceito desenvolvido no âmbito da ecologia acústica por R. Murray Schafer, associado ao ambiente sonoro de um lugar, composto por sons de origem natural, humana e mecânica (Schafer, 1977). 3. perspetiva que se afasta de uma abordagem centrada apenas no controlo, redução ou isolamento do ruído, ao considerar o som como recurso qualitativo da experiência espacial (Kang et al., 2016; Kang & Schulte-Fortkamp, 2016). 4. pode influenciar as emoções, o conforto, o comportamento e o bem-estar dos utilizadores (Spence, 2020). 5. pode atuar como referência espacial, ao permitir identificar fontes sonoras, limites, variações de escala, distância e características da configuração do espaço (Koutsoklenis & Papadopoulos, 2011; Southworth, 1969).
Os sons da paisagem sonora, quando articulados com elementos sonoros intencionalmente introduzidos no abrigo solar, devem resultar numa composição harmoniosa que evite conflitos entre estímulos e contribuir para uma experiência sonora equilibrada.
conforto acústico
n 1. avaliação subjetiva em que os estímulos acústicos são percecionados como adequados e associados a uma sensação de bem-estar (Yang & Kang, 2005). 2. depende das características físicas do som, como intensidade, frequência e propriedades temporais e espaciais, e de fatores psicológicos e fisiológicos, sociais e culturais (Yang & Kang, 2005; Hirashima & Assis, 2017). 3. condicionado pela qualidade, origem e significado das fontes sonoras, e não apenas pela intensidade sonora. 4. influencia a perceção, avaliação e aceitação do espaço pelos utilizadores.
Todos os sons presentes no espaço devem ser considerados de forma a não comprometer o conforto dos utilizadores. O projeto Shade deve atenuar os sons provenientes da envolvente que possam distrair e desorientar os utilizadores, especialmente os não visuais.
fontes sonoras dominantes
n 1. sons que se destacam percetivamente no ambiente sonoro e que assumem maior predominância relativamente aos restantes. 2. dependem das propriedades físicas do som, como intensidade, frequência e padrões temporais, e do significado e relevância que assumem para o utilizador num determinado contexto (Raimbault & Dubois, 2005; Yang & Kang, 2005). 3. condicionadas por fatores como a atenção seletiva, a expectativa e o conhecimento prévio dos sons, que influenciam o estado de alerta e a interpretação subjetiva do ambiente sonoro (Kang et al., 2016).
A introdução de fontes sonoras no projeto deve ser intencional e articulada com a organização do espaço. Os elementos sonoros podem atuar como marcos de referência, sugerindo entradas, percursos e zonas de permanência. Pode-se recorrer a elementos como água em movimento para criar pontos sonoros facilmente identificáveis, bem como outros elementos sonoros pontuais, utilizados de forma controlada.
IV. Conceitos Relacionados com a Perceção Tátil
textura do material
n 1. conjunto de propriedades e parâmetros objetivos do material, relacionados com a configuração geométrica e os atributos físico-químicos da superfície. 2. resulta da interpretação subjetiva e depende da sensibilidade e da experiência do utilizador (Zuo & Jones, 2005). 3. pode ser percecionada visualmente, através de padrões e configurações geométricas, e hapticamente, através do contacto com a superfície (Zuo & Jones, 2005). 4. permite reconhecer características como rugosidade, suavidade ou irregularidade, relevantes para a leitura e interpretação do espaço (Dantas et al., 2024; Zuo & Jones, 2005). 5. estímulo sensorial importante na seleção de materiais e na relação do utilizador com o ambiente construído (Wang et al., 2020).
A utilização de diferentes texturas e materiais nos elementos que definem o espaço atua como uma componente referencial para o percurso do próprio espaço, principalmente para os utilizadores não visuais. Nos abrigos solares, pode-se introduzir padrões no pavimento ou elementos como paredes guia com faixas texturizadas, que auxiliam a orientação e a movimentação no espaço. Deve-se evitar uma utilização excessiva de diferentes texturas, para não comprometer a clareza da experiência tátil.
temperatura da superfície
n 1. temperatura percecionada pela pele no contacto com as superfícies dos materiais. 2. influenciada pelas condições atmosféricas e pelas propriedades térmicas dos materiais. 3. condiciona a sensação de conforto térmico através do contacto direto com a superfície ou pela perceção térmica sentida antes do toque, quando o corpo se aproxima de superfícies aquecidas (Pallasmaa, 2011). 4. dimensão sensorial crítica na seleção de materiais, especialmente em espaços exteriores sujeitos à radiação solar.
Nos abrigos solares, deve-se privilegiar materiais que não tenham tendência a sobreaquecer quando expostos ao sol, especialmente nas superfícies em contacto direto com o utilizador. O controlo da temperatura contribui para uma experiência mais confortável e segura, que afeta diretamente o tempo de permanência no espaço.
V. Conceitos Relacionados com o Ambiente Olfativo*
* Os conceitos “Intensidade do Odor”, “Carácter do Odor” e “Tom Hedónico” correspondem a propriedades do odor, amplamente referidas na literatura no âmbito da perceção olfativa. Para além destes conceitos, considera-se pertinente incluir “Smellscape”, “Fontes de Odor” e “Smellwalk”.
smellscape [paisagem olfativa]
n 1. dimensão percetiva e subjetiva do ambiente olfativo num determinado contexto espacial (Vincent & Hartt, 2024). 2. conceito introduzido por Porteous, em 1985, por analogia ao conceito de soundscape. 3. não corresponde apenas à presença física de odores, mas à relação que estabelecem com o lugar, com a memória e com a experiência sensorial dos utilizadores. 4. pode evocar respostas emocionais, estabelecer ligações afetivas com os utilizadores e atuar como elemento de orientação e identidade espacial (Wankhede et al., 2023; Xiao et al., 2020).
Como parte do desenho multissensorial, o ambiente olfativo deve ser integrado no pensamento criativo do projeto. A presença de estímulos olfativos pode contribuir para a experiência e compreensão do espaço por parte dos utilizadores, influenciando a qualidade do espaço construído, a sua identidade e a relação com o utilizador.
carácter do odor
n 1. identidade olfativa de um determinado elemento ou ambiente, que permite a sua distinção perante outros estímulos olfativos. 2. pode reforçar a identidade espacial e estabelecer ligações emocionais com os utilizadores (Vincent & Hartt, 2024; Xiao et al., 2020). 3. pode evocar memórias, sobretudo quando associado a experiências anteriores (Pallasmaa, 2011; Wankhede et al., 2023). 4. pode apoiar a caracterização sensorial e o reconhecimento de um espaço.
O projeto deve adotar odores distintos ao longo do abrigo solar, que contribuam para a caracterização do espaço e reforcem a identidade olfativa do ambiente construído, facilitando, assim, a identificação pelos utilizadores.
intensidade do odor
n 1. magnitude percecionada de um odor pelos utilizadores. 2. influenciada pela concentração do odor no ambiente e pela sensibilidade olfativa individual (Baccarani et al., 2021). 3. pode diminuir durante a exposição prolongada, devido à adaptação ou habituação olfativa (Engen, 1991). 4. pode continuar a influenciar a experiência espacial e o comportamento, mesmo quando deixa de ser percecionada de forma consciente ou com a mesma intensidade (W. Li et al., 2007). 5. pode revelar pistas sobre a proximidade, direção ou concentração da fonte de odor. 6. contribui para a leitura e orientação no espaço.
O utilizador é capaz de identificar quase imediatamente um odor, no entanto, com a exposição contínua, a sua perceção tende a diminuir. Para evitar a saturação olfativa, o projeto deve integrar variações de intensidade dos estímulos ao longo do espaço, o que permite uma maior diferenciação do ambiente olfativo.
tom hedónico
n 1. resposta emocional a um estímulo olfativo, que indica se um odor é percecionado como agradável ou desagradável. 2. avaliação subjetiva, variável entre indivíduos e contextos socioculturais (Distel, 1999; J. Li et al., 2019). 3. condicionado pelas características e concentração do odor, mas também pelo contexto e duração da exposição (Henshaw et al., 2018). 4. pode evocar emoções e memórias com influência na sensação de bem-estar, conforto e aceitação do espaço (Liang et al., 2024; Xiao et al., 2020).
Para favorecer o bem-estar dos utilizadores e proporcionar um ambiente mais acolhedor e confortável, o projeto deve incluir odores agradáveis. Ao mesmo tempo, é importante atenuar ou evitar odores desagradáveis, de forma a não comprometer a experiência do espaço nem levar à sua rejeição.
fontes de odor
n 1. elementos de origem natural ou artificial responsáveis pela emissão de estímulos olfativos num determinado ambiente. 2. podem ser introduzidas ou valorizadas no espaço para evocar respostas emocionais, promover o bem-estar e influenciar positivamente o comportamento dos utilizadores (Taufer et al., 2025). 3. podem contribuir para a orientação espacial dos utilizadores, especialmente para os não visuais, ao atuar como referências sensoriais (Koutsoklenis & Papadopoulos, 2011).
Nos espaços azuis, a água pode contribuir para a identidade olfativa do ambiente. O projeto deve valorizar a sua presença e evitar a introdução de odores que entrem em conflito.
smellwalk
n 1. técnica de exploração sensorial que combina a caminhada com a atenção dirigida aos estímulos olfativos presentes no espaço (Henshaw, 2014). 2. método que analisa como os utilizadores experienciam, compreendem e utilizam o espaço através da informação sensorial recolhida ao longo do percurso (Henshaw, 2014). 3. possibilita a identificação e o registo dos odores percecionados durante a caminhada, reunindo informação que pode ser representada em mapas olfativos. 4. instrumento de leitura sensorial do espaço, relevante para compreender o papel dos odores na experiência do lugar, na memória urbana e na construção da identidade espacial (Parker et al., 2024; Perkins & McLean, 2020).
Este método incentiva os participantes a estarem conscientes dos odores presentes no ambiente enquanto caminham, permitindo relacionar as perceções olfativas com a experiência espacial.
BIBLIOGRAFIA REFERENCIADA
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